Devemos ou não levantar nossas mãos no culto?
Sei que Mateus 6 é um capítulo que se destaca para você, Pastor John, enquanto discernimos as motivações do coração por trás de nossas práticas religiosas. Portanto, aqui esta uma pergunta relevante e oportuna de Ryan hoje: “Prezado Pastor John, faço a seguinte pergunta porque em Mateus 6.1 Jesus nos adverte para não praticarmos nossa justiça para sermos vistos pelos outros. Ele então aplica isso à oração e à oferta, dizendo que, quando fazemos essas coisas publicamente para recebermos o elogio dos outros, já recebemos nossa recompensa completa. Entendo o perigo da hipocrisia e da busca pela aprovação humana em nossas práticas espirituais. Mas me pergunto: até que ponto esse princípio se estende a outras áreas da vida cristã?”
Por exemplo, como esse ensinamento se aplica ao culto congregacional? Os cristãos devem se preocupar com o fato de levantar as mãos, fechar os olhos ou expressar emoções durante o culto poder ultrapassar os limites e se tornar uma demonstração de justiça perante os outros? Ou o culto se enquadra em uma categoria diferente? E quanto a orar antes das refeições em restaurantes, compartilhar nosso testemunho online ou até mesmo publicar versículos bíblicos nas redes sociais? Quando a fidelidade pública se torna uma performance pública?
A realidade de Deus
Adoro esta passagem das Escrituras, Mateus 6.1-18. Não há muitas outras passagens que me tenham levado a uma compreensão tão profunda da presença pessoal de Deus na minha vida, da preciosidade da sua paternidade e da realidade das suas recompensas. Creio que essa é a principal preocupação de Jesus aqui. Esses três testes — a esmola, a oração e o jejum — são, na verdade, maneiras de cada um de nós confrontar seriamente a autenticidade do nosso próprio coração e a realidade de Deus nas nossas vidas. Deus é uma pessoa real para nós? Creio que essa é a pergunta de Jesus. Ele é um Pai real para nós? Ele é um tesouro real e precioso para nós quando promete nos recompensar?
Cada um desses testes basicamente pergunta: “Você deseja a Deus mais do que qualquer outra coisa? Ele é real para você?” Você sabe como é bom quando outras pessoas elogiam você. Agora, aqui está o teste: você se sente tão bem sabendo que, em suas ofertas, orações e jejuns, seu Pai celestial se agrada? A aprovação de Deus, quando Ele diz: “Muito bem, servo bom e fiel!” (Mateus 25.21), lhe traz a mesma satisfação que o elogio dos homens? É isso que esses versículos estão incentivando e testando.
Jesus quer que conheçamos o Seu Pai como nosso Pai e que sejamos profundamente felizes e satisfeitos com o olhar do Pai sobre nós, com a Sua aprovação dos nossos comportamentos e com as recompensas das Suas promessas e da Sua presença. É isso que Jesus quer: Conheça o seu Pai; desfrute da comunhão com o seu Pai; caminhe no sorriso do seu Pai; maravilhe-se e alegre-se por Ele ser quem o recompensa.
Motivação do coração acima da ação
Agora, a maneira como Jesus nos ajuda a sermos sinceros com Deus é nos perguntando três vezes quais são nossas motivações ao dar, orar e jejuar: Você dá aos pobres para ser elogiado pelos outros (Mateus 6.2)? Você ora em público para ser visto pelos outros (Mateus 6.5)? E você deixa que o seu jejum seja conhecido para ser visto pelos outros (Mateus 6.16)? E no versículo 1, ele resume tudo: “Cuidado para não praticarem a sua justiça diante dos outros para serem vistos por eles”.
Quatro vezes neste texto, a questão é a nossa motivação, e não a nossa ação em si. O objetivo não é que ninguém jamais saiba que você é uma pessoa generosa. Não é esse o ponto. Não é que ninguém jamais saiba que você ora, ou que ninguém jamais saiba que você jejua de vez em quando. Simplesmente não é esse o ponto. Aliás, isso não funciona e é totalmente contrário às Escrituras. Você não pode viver a vida cristã sem ser conhecido por ser uma pessoa piedosa. Não pode.
Paulo diz que devemos adornar o Evangelho com bondade visível (Tito 2.10). Nossa vida é um adorno; não é invisível. De fato, Jesus disse em Mateus 5.16: “Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam” — vejam o quê? — “as suas boas obras e glorifiquem o Pai de vocês, que está nos céus”.
Às vezes, há boas ações que as pessoas devem ver, e às vezes nossas boas ações devem ser tão discretas que nossa mão esquerda não saiba o que nossa mão direita está fazendo (Mateus 6.3-4). E a questão é o seu coração. Ansiamos pela aprovação e pelo elogio de outras pessoas? É esse o alimento que satisfaz nossa alma? Ou o prazer da aprovação alheia empalidece em comparação com o sorriso de aprovação do nosso Pai celestial (Mateus 5.16)?
Não há espaços seguros
Eu responderia à pergunta de Ryan assim: Sim, o ensinamento de Jesus em Mateus 6.1-18 se aplica a todas as áreas da vida, não apenas a doar, orar e jejuar. Sim, seja levantar as mãos em adoração, fechar os olhos, expressar emoções, pregar, ler a Bíblia, frequentar a igreja, participar de ações sociais em lugares carentes, orar antes das refeições ou em qualquer lugar, usar camisetas com versículos ou dizeres cristãos, fazer tatuagens, demonstrar compaixão, indignação ou piedade online (incluindo postar versículos bíblicos como eu faço), ajudar alguém a trocar um pneu furado numa noite fria de inverno, dar o dízimo ou fazer doações, toda demonstração de bondade na família, na sociedade ou no trabalho — tudo isso, sem exceção, pode ser feito para ser elogiado pelas pessoas.
Não existem espaços seguros. Não existem comportamentos seguros neste mundo — nenhum. Nossos corações humanos estão infectados pelo pecado inerente e são capazes de se orgulhar dos comportamentos mais humildes, bondosos e generosos. Você pode se vangloriar tanto de manter as mãos baixas em adoração quanto de levantá-las. Você pode se vangloriar tanto de manter a voz em silêncio em uma reunião de oração quanto de orar em voz alta. A solução não está no comportamento; a solução está no coração.
Fidelidade ou desempenho?
Ryan pergunta: “Quando a fidelidade pública se torna uma performance pública?” E quem já fez alguma coisa na presença de outras duas pessoas nunca se perguntou isso? Se a pessoa se preocupa com o próprio coração e com o estado em que ele se encontra, acho que tudo se resume a três coisas.
Em primeiro lugar, a fidelidade pública torna-se mera performance pública quando é motivada por um desejo maior de elogios humanos do que pela aprovação de Deus. Devemos buscar conhecer nossos próprios corações.
Em segundo lugar, a fidelidade pública torna-se mera performance pública quando falha no teste de amar o próximo e buscar o seu bem, e não apenas a nossa liberdade. Por exemplo, imagine que você está em um culto com mil pessoas. Eu já estive nessa situação. Imagine que você está em um culto com mil pessoas, e nenhuma delas levanta as mãos, nenhuma mesmo. A questão que você enfrenta — como alguém como eu, que naturalmente, livremente e regularmente levanta as mãos em adoração — é esta: essas pessoas precisam ser estimuladas a sair de suas limitações, ou precisam ser humildemente respeitadas e não ofendidas? E é por isso que Paulo orou para que o nosso “amor transborde cada vez mais em conhecimento e em toda a percepção” (Filipenses 1.9).
Por fim, a fidelidade pública se torna uma mera performance pública quando deixamos de almejar que Deus seja glorificado mais do que nós. Simplesmente não desejamos isso; não queremos. Isso é uma falha. O que nos leva de volta ao ponto de partida: Deus é real para nós? Ele é um Pai precioso para nós? A promessa de sua recompensa é muito mais desejável do que as recompensas da admiração humana?

