Auê - Coletivo Candieiro (Análise da música)
Uma análise sobre limites, ambiguidades e graça comum
Este artigo nasce da necessidade de refletir biblicamente sobre a música Auê (A Fé Ganhou), de Marco Telles e Coletivo Candeeiro, à luz da teologia do culto, da música cristã e da relação entre arte, cultura e igreja. Diante da enorme repercussão da música, marcada por elogios entusiasmados, críticas severas, acusações injustas e, infelizmente, também por ofensas mútuas, vejo que torna-se necessário desacelerar o debate e perguntar: como devemos avaliar essa obra? A partir de quais critérios? E em que categoria ela realmente se enquadra?
Desde o início, é importante deixar claro um pressuposto metodológico que guia não apenas este texto, mas todas as análises publicadas aqui no blog do Cante as Escrituras: avaliamos a arte, não o artista. Certo? Não se trata de julgar intenções ocultas, experiências pessoais, histórias pregressas ou supostas motivações dos autores. Nosso interesse está no conteúdo da obra, em sua forma, em sua função comunicativa e em sua adequação, ou não, ao contexto do culto comunitário cristão.
Esse esclarecimento inicial é importante, pois grande parte da confusão em torno de “Auê” nasce exatamente da ausência de distinções básicas: entre arte e culto, entre expressão cultural e canto congregacional, entre poesia simbólica e proclamação explícita do Evangelho.
É congregacional ou não?
O primeiro e talvez mais importante ponto desta análise é este: “Auê” não é e nem pretende ser uma música para o canto congregacional.
Isso precisa ser afirmado com clareza logo de início, pois um dos muitos critérios usados para condenar a canção simplesmente não se aplicam a ela. A música não um louvor e não foi composta para ser cantada pela igreja reunida no culto comunitário, pois não possui estrutura melódica simples, repetições intencionais e facilmente assimilável, nem uma letra pensada para ser proclamada coletivamente como confissão de fé pública da igreja.
Do ponto de vista musical, a rítmica é complexa e não intuitiva para o canto congregacional. Do ponto de vista literário, a letra se constrói por imagens, símbolos e narrativas fragmentadas, exigindo uma escuta atenta e interpretação, algo que, por definição, não caracteriza o canto congregacional. Por mais que sejamos chamados a refletir aquilo que cantamos no canto comunitário, não somos impedidos num primeiro momento de entender de modo claro o que estamos afirmando coletivamente.
Então, misturar essas categorias é o primeiro erro cometido por grande parte das críticas, sejam elas positivas ou negativas.
Por outro lado, a igreja sempre produziu e sempre conviveu com arte cristã que não é canto congregacional. Bandas como Resgate, Oficina G3, Fruto Sagrado, bem como compositores como João Alexandre, Stênio Marcius e outros, produziram músicas que dialogam com fé, dor, cultura, denúncia e experiência humana, mas que em sua maioria não foram pensadas para o culto público dominical. Isso não as torna músicas menos cristãs, mas simplesmente as coloca em outra prateleira, outra categoria.
É justamente aqui que a doutrina da graça comum, desenvolvida especialmente por Abraham Kuyper, se torna fundamental para a conversa, visto que estamos falando de um tipo de arte que dialoga muito com elementos culturais.
Kuyper afirmou que: “Não há um centímetro quadrado em todo o domínio da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!’”. Essa afirmação não significa que toda produção cultural seja automaticamente redentora ou espiritualmente neutra, mas que Deus, em sua graça comum, sustenta, capacita e permite manifestações de beleza, verdade parcial e criatividade mesmo fora do âmbito explícito da fé cristã.
Autores reformados contemporâneos frequentemente reforçam esse ponto: nem toda arte precisa funcionar como proclamação direta do Evangelho para ter valor, mas toda arte precisa ser avaliada com discernimento, especialmente quando circula entre cristãos.
Nesse sentido, “Auê” se apresenta como uma obra artística que bebe profundamente da cultura popular brasileira, especialmente nordestina, para narrar, de forma poética, a inclusão dos “simples”, dos “de fora”, dos marginalizados no grande banquete do Reino. A referência bíblica se encontra em Lucas 14, a parábola do grande banquete, onde os convidados originais recusam o convite e o senhor da casa ordena que os pobres, aleijados, cegos e mancos sejam trazidos.
O problema então não está na inspiração bíblica mas na forma como essa estória é comunicada.
Outro elemento fundamental para entender “Auê” é perceber que ela não foi concebida como uma música autônoma, mas como parte de um projeto maior, quase como um musical. Assim como uma cena isolada de um musical pode soar confusa, incompleta ou até mal-interpretada fora do contexto, o mesmo acontece aqui.
Isoladamente, a letra não deixa claras suas referências bíblicas ou intenção da sua narrativa. Dentro do conjunto da obra O Grande Banquete, aí sim essas conexões se tornam mais evidentes. Ainda assim, esse formato reforça um ponto importante: isso, por definição, afasta ainda mais a música do universo congregacional quando pensamos em músicas para o culto.
O canto congregacional exige clareza imediata, uma confissão que pode ser compartilhada e entendimento de todos os presentes. Uma obra que depende do todo para ser compreendida, que trabalha com imagens abertas e simbolismos culturais específicos, simplesmente não atende a esses critérios, e não precisa atender.
Até aqui, por isso, podemos afirmar:
“Auê” é uma obra artística cristã feita para fora do culto, e que, justamente por isso, exige um tipo específico de avaliação, diferente daquela aplicada ao canto da igreja.
As três marcas da música para o canto congregacional
Ao longo das nossas análises e do manifesto que norteia nossa missão aqui no Cante as Escrituras em nossos 16 anos de trabalho, temos defendido que a música destinada ao culto cristão, isto é, ao canto congregacional, precisa atender de maneira clara e intencional três marcas fundamentais:
Ser centrada nas Escrituras
Ser baseada nos atributos de Deus
Expor Cristo e o Evangelho
Essas marcas não existem para engessar a criatividade da igreja (longe disso!) mas para proteger o povo de Deus, garantindo que aquilo que é cantado no culto público funcione como ensino, confissão e proclamação da fé. Pois sabemos que uma igreja pode (e deve) ser conhecida por aquilo que confessa enquanto canta.
Quando avaliamos Auê a partir desses critérios, o diagnóstico se torna relativamente simples: a música não falha enquanto arte, mas falha enquanto canto congregacional. Porém, é importante lembrar que ela mesmo não se propõe a servir para isso. Vejamos então…
1. Escritura: inspiração não é o mesmo que exposição
É correto afirmar que Auê se inspira em Lucas 14, especialmente na parábola do grande banquete. Os autores mesmo afirmam isso. A ideia da inclusão dos “de fora”, da inversão de expectativas e da festa no Reino de Deus está presente de maneira poética ao longo da letra.
Entretanto, inspiração bíblica não equivale a exposição bíblica. E isso precisa ser deixado claro aqui também. No canto congregacional, a Escritura não apenas inspira; ela é cantada, proclamada e ensinada claramente. Em Auê, a referência bíblica está diluída em imagens culturais, narrativas implícitas e símbolos que exigem interpretação para ser entendida. Para quem não conhece o pano de fundo bíblico ou o projeto completo da obra, essa conexão simplesmente não se torna nada clara.
Isso não invalida a música como arte, mas impede que ela cumpra a função catequética que o canto congregacional precisa exercer.
2. Atributos de Deus: ausência de louvor explícito
Outro ponto decisivo é a ausência de um louvor explícito aos atributos de Deus. Não se trata apenas de mencionar o nome Deus, mas de exaltar quem Deus é — sua santidade, soberania, misericórdia, justiça, fidelidade. No culto, cantamos para o louvor da glória de Deus, e por isso, a música cristã para o ambiente de culto precisa ter isso claro e evidente.
Em Auê, o foco narrativo recai majoritariamente sobre os personagens, o ambiente festivo, a experiência da inclusão e a reação dos observadores. Deus está presente ali, como o anfitrião invisível da festa, mas seus atributos não são claramente celebrados.
Mais uma vez, isso pode funcionar dentro de uma proposta de arte narrativa para o ambiente fora do culto, como expressão de arte, mas não atende às exigências do louvor congregacional, onde o centro deve ser sempre quem Deus é.
3. Cristo e o Evangelho: o problema da ambiguidade poética
Talvez o ponto mais sensível da discussão seja a centralidade de Cristo. É verdade, e precisa ser dito, que nem toda música cristã precisa citar nominalmente o nome “Jesus” para ser cristã. A história da música da igreja nos dá inúmeros exemplos de cânticos plenamente cristocêntricos que utilizam títulos, metáforas e linguagem bíblica indireta.
O problema em Auê não é a ausência do nome “Jesus”, mas o fato de que a obra, isoladamente, não deixa claro quem é o centro da narrativa. Quando inserida no contexto maior do álbum, a mensagem se esclarece. Mas fora dele, a canção se torna aberta demais, permitindo múltiplas leituras, inclusive leituras equivocadas.
No culto cristão, ambiguidade raramente é algo bom.
Ambiguidade cultural: entre a intenção e a recepção da igreja
É aqui que chegamos ao ponto mais delicado, e talvez mais mal conduzido, de toda a controvérsia: as associações culturais feitas por parte do público.
É preciso afirmar com clareza e justiça: não há qualquer evidência de que a música tenha sido composta com intenção de dialogar com umbanda, candomblé ou qualquer prática religiosa sincrética. Além de que, novamente, os próprios autores afirmaram isso. Então, sendo nossos irmãos, devemos acatar como verdade. Então uma leitura honesta da letra, somada às declarações públicas dos autores, não sustenta esse tipo de acusação.
No entanto, infelizmente também é preciso reconhecer algo igualmente que é igualmente verdade: a ambiguidade. Símbolos, palavras, ritmos e imagens carregam memórias culturais. Para muitas pessoas, especialmente aquelas que conhecem ou vêm de contextos religiosos afro-brasileiros, certas associações foram inevitáveis ainda que não tenha sido intencional. A comunicação não é feita apenas através do que se diz mas no como se diz.
Além de que quando uma obra gera leituras que desviam o foco do Evangelho, é legítimo perguntar se faltou discernimento pastoral e de comunicação no uso desses elementos. Temos que ser realistas aqui.
Mas isso também não justificam as ofensas, os ataques ou difamações. Mas também não autoriza a desqualificação automática daqueles que sentiram desconforto. Amor à igreja implica ouvir esse lado também.
Aqui cabe portanto um ponto pastoral importante que li em um post do Andrew McAlister: nem toda arte é para todos, e nem toda provocação é igualmente construtiva em todos os contextos. A igreja brasileira é diversa, marcada por diferentes níveis de formação teológica, letramento bíblico e histórico cultural. O que para alguns é uma provocação saudável, para outros pode se tornar um obstáculo real.
Isso não significa que a arte deva ser empobrecida, mas que a responsabilidade cresce à medida que a audiência se amplia. Quando uma obra circula majoritariamente entre cristãos, especialmente em ambientes ligados à igreja, o cuidado pastoral precisa caminhar junto com a liberdade artística.
Talvez, à luz de tudo o que aconteceu, fique claro que Auê poderia ter se beneficiado de um esclarecimento prévio mais explícito, contextualizando a proposta da obra, seu lugar fora do culto e sua intenção final. Não para apagar a obra, mas para assim servir melhor à igreja.
Mas então, o que podemos aprender com tudo isso?
A controvérsia em torno de Auê revelou mais sobre nossas fragilidades como igreja do que sobre a música em si. Houve precipitação, julgamentos apressados, uso leviano de rótulos e, infelizmente, falta de amor de ambos os lados. Ainda assim, algo positivo pode e deve surgir em meio a tudo isso.
Nós fomos forçados a conversar sobre:
O que é, de fato, canto congregacional
O papel da arte fora do culto
A importância da clareza teológica
Os limites da ambiguidade
A doutrina da graça comum
E a necessidade urgente de conversas mais maduras sobre música, fé e cultura
Se essa discussão nos levar a escolher músicas mais bíblicas para o culto, a valorizar melhor a arte cristã fora da igreja e a dialogar com mais amor e respeito, então algo bom terá sido produzido.
A igreja não precisa de menos arte, mas de mais discernimento, mais amor e mais clareza.

